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Um jeito para crescer



publicado em: 01/07/2011

Especialistas discutem soluções para o transporte e logística visando maior produtividade e crescimento


A indústria está muito preocupada com os rumos da economia e dá sinais claros de que agora é hora de mexer na infraestrutura, eliminar os gargalos logísticos e crescer. A discussão tem sido recorrente em todos os fóruns, onde empresários e especialistas de todas as esferas se encontram. Ou seja, todos procuram o que falta para acelerar para valer as ações.

A Fiesp ? Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, continua nessa cruzada com o sexto encontro de Logística e Transportes, intitulado "Brasil: sem medo de crescer" cujo objetivo foi debater os problemas e soluções para os transportes ferroviário, hidroviário, cabotagem, aéreo e rodoviário e suas necessidades.

A animação foi geral e efêmera. Pouco tempo depois a casa caiu. Justamente o pilar de sustentação dos principais projetos de infraestrutura, o ministro dos Transportes, saiu da pista. Indícios claros de corrupção, improbidade administrativa e enriquecimento ilícito pesaram nas demissões de Alfredo Nascimento e de boa parte dos dirigentes das autarquias satélites (Valec, Dnit etc).

Braços cruzados
Aliás, não é de hoje que a CGU - Controladoria Geral da União, e o Ministério Público empilham denúncias e processos sobre a omissão, ineficiência e descumprimento de prazos pelo órgão. Se houver coragem, é preciso colocar o dedo na ferida e inserir no programa de encontros futuros a temática "moralidade e ética da máquina estatal". Até porque, seus signatários sempre comparecem nessas ocasiões, com apresentações enigmáticas, números polpudos e uma "quase" convincente disposição para agir.

Pelo número de destaques pode-se avaliar o tamanho do problema: necessidade de diluir a distribuição de cargas, incentivando a multimodalidade; aperfeiçoamento do marco regulatório da ferrovia, da hidrovia, estruturação de portos, integração e os rumos da logística e transportes. Isso configura a trincheira que transforma o país em refém de taxas de crescimento comportadas, entre 4% e 5%.

Paulo Skaf, presidente da Fiesp, mostrou-se preocupado com a barreira logística ao crescimento: "O Brasil tem PIB de 4 trilhões de reais. Temos que crescer e nossos produtos não podem perder competitividade."

Carlos Cavalcanti, diretor-titular do Deinfra - Departamento de Infraestrutura da Fiesp, tocou em pontos estratégicos. O Pré-Sal e o etanol colocam o Brasil num lugar de excelência em relação ao potencial energético, mas precisamos principalmente de uma logística moderna". Segundo a FAO - Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, o crescimento na produção mundial de alimentos até 2050 será de 70%.

Tudo no papel
"Só o Brasil aumentará sua produção em 40% até 2019", diz Cavalcanti. A previsão é de que teremos excedentes, permitindo ampliar as exportações de soja em 140%, de milho em 108%, de carne bovina em 81%, de frango em 66% e de suíno em 56%". Sem contar que, hoje, já somos líderes na exportação de açúcar, carnes, café em grão e suco de laranja.

Além dos alimentícios, há demanda para produtos químicos, máquinas, suprimentos em geral e a elevação da produção de minérios para a produção de chapas e outros produtos siderúrgicos. A estimativa é de que o nível de encomendas nos próximos anos chegará a 4,8 milhões de toneladas. Mas, tudo isso depende de infraestrutura, energia e transporte.

Para Cavalcanti, se o país levar mais de 50 anos para atingir o patamar de produção de 2 milhões de barris/dia de óleo equivalente, perderemos a oportunidade de triplicar a produção nacional, atingindo 5,4 milhões de barris/dia em 2020 e competir no mercado global. E tudo depende de fomentar a logística e o transporte.

Para Marcelo Perrupato, secretário de Política Nacional de Transportes, a situação é antiga, catastrófica e humilhante para a nação brasileira. Ele enfatizou que o governo Lula promoveu estabilidade e um cenário macroeconômico favorável que deve se desdobrar em planejamento de médio e longo prazos, com o esforço conjunto do setor privado, sem o qual não será possível suportar o ritmo de crescimento, que exigirá investimentos vultosos para ampliar a infraestrutura e eliminar os gargalos.

"A falta de capilaridade e integração entre os modais e o colapso de portos e aeroportos deixam o país travado. O Brasil tem a quinta maior malha rodoviária do mundo, mas somente 15% dela é pavimentada e destes 58% estão estado deplorável", alfineta Cavalcanti.

Perrupato diz que o PNLT - Plano Nacional de Logística e Transporte - integra um projeto que reduzirá as desigualdades: "Trabalhamos com o valor R$ 4,5 trilhões do PIB até 2013 e com R$ 18 trilhões até 2030, prevendo crescimento do PIB de 3,5% ao ano", calcula. Taxas, no mínimo, medíocres para as nossas necessidades.

Na avaliação do secretário, o rodoviário cresceu mais de 10% em 2010 e já foram iniciadas as ações em prol da multimodalidade, com operações bem sucedidas, por exemplo, no roll on-roll off ? coisa que não acontecia há 45 anos. Em compensação Silvio Ciampaglia, presidente do Sindicato da Indústria da Construção Pesada de São Paulo, comprovou através de estudo que uma boa pavimentação resulta numa economia de 5% no consumo de diesel.

O representante do Setcesp, Adauto Bentivegna Filho, criticou as barreiras fiscais e a carga tributária. "Se em alguns setores houve avanços, no setor de transportes há muito a ser feito", disse. Ele citou os pesos "extras" que trafegam junto com os produtos, do pedágio aos impostos em cascata, bem como as taxas devidas ao Ibama, à Polícia Federal, além de PIS/Pasep, Cofins e outros. "É preciso simplificar essa contabilidade.".

Alfredo Cunha Neto, diretor da Guerra Batista Associados, Hélcio Hondo, diretor jurídico da Fiesp e Tânia Gurgel, diretora da consultaria TAF concordam que o setor sofre impactos severos com isso. Para se ter ideia, uma transportadora gasta R$ 80 mil no transporte de uma carga de 300 toneladas entre a cidade de São Paulo e o Porto de Santos.

"Não se faz logística no país sem se conhecer a fundo os meandros tributários em vigor no país", alertou Cunha Neto. Já Honda, vê muitos problemas que envolvem a Substituição Tributária, as diferenças tributárias entre os Estados e os créditos acumulados no âmbito estadual.

Segundo Tânia Gurgel, as empresas gastam, em média, 2.600 horas/ano para entender à atual legislação. Hoje, 31 normas tributárias são publicadas diariamente. "O Brasil é o campeão mundial da burocracia. São editadas 700 regras por dia nos níveis municipal, estadual e federal". A especialista recomendou a adoção de tecnologia como SEP e RFID para o acompanhamento e controle da operação, para reduzir as paradas dos caminhões, graças a leitura dos dados em tags colocados nas composições.

Outros modais
Amilcar Guerreiro, diretor de Estudos Econômicos, Energéticos e Ambientais da EPE - Empresa de Pesquisas Energéticas, adicionou: "Os setores de energia e transportes são de infraestrutura e podem ser responsáveis por um hiato no crescimento econômico do país".

O secretário-executivo do Ministério dos Portos, Mário Lima Junior, declarou que a demanda dos portos sofrerá reflexos do cenário global: "Hoje recebemos nos portos navios na sua maioria asiáticos, mas, nos próximos três anos, devido às mudanças no Canal do Panamá, os portos do Norte e Nordeste ganharão relevância", adiantou. O representante do governo também cita as novas rotas via Canal de Suez e a futura demanda por frutas tropicais para o mercado asiático.

Em tom severo, Sérgio Aquino, presidente do Conselho da Autoridade Portuária de Santos, cobrou mudanças efetivas para a modernização e a viabilização da infraestrutura logística do principal porto do país. "Defendemos o Rodoanel da Baixada Santista, uma ligação estratégica aprovada desde 2006", acrescentou, referindo-se aos recursos de logística que podem melhorar o escoamento de cargas. "Temos que resolver as acessibilidades. Porto sem canal adequado pode ser tudo, mas não porto. Precisamos ter navegabilidade adequada", argumentou.

O crescente aumento da movimentação de contêineres não passou batido. José Antônio Cristóvão Balau, diretor da Aliança Navegação e Logística, diz que entre os anos de 2000 e 2010 houve um crescimento de 278% da movimentação desses cofres de carga no Porto de Santos, enquanto a carga a granel avançou 193% no mesmo período.

Para ele, esta é a razão de o porto de Suape, em Pernambuco, estar se revelando um modelo de eficiência no escoamento de cargas e referência no planejamento da logística e infraestrutura. "Devido as ações agressivas daquele governo, Suape atraiu para o seu entorno uma série de indústrias", disse Balau.

Os representantes da área de hidrovias, dutovias e ferrovias garantem que os projetos previstos diminuirão o uso do modal rodoviário. No caso, a hidrovia poderá subtrair 40 mil viagens de caminhão por ano, só no transporte de combustíveis.

A Transpetro garante que está otimizando o uso do transporte dutoviário ? os dutos já somam 14 mil km para o transporte de óleo e gás ? e do marítimo. A capacidade de armazenamento já chega a 630 milhões de metros cúbicos, além de mais 53 navios petroleiros que carregam 2,9 milhões toneladas brutas de petróleo e derivados por ano.

No segmento aéreo ainda discute a privatização dos aeroportos, o ferroviário, que já vive essa realidade, pretende chegar a movimentar 31,3% da matriz nacional até 2020. Mas, nem tudo está perdido. Paulo Fleury, diretor do Ilos, garante que já houve avanço na logística, com a profissionalização das empresas e do número de provedores, mas o aumento dos custos com os serviços logísticos foi grande e em alguns segmentos já representa 63% da planilha. "O rombo que o Brasil tem com a ineficiência logística é de R$ 120 bilhões", diz.

Sem planejamento, recuperação e revisão e ampliação da infraestrutura logística para carga o desenvolvimento tecnológico das indústrias pesadas será limitado e condenado à produção de cargas de no máximo 300 t de carga líquida. Não é uma boa notícia para quem pretende crescer para valer.


Redação: Ligia Cruz
Foto(s): Divulgação


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