São Paulo, quem diria já pode pleitear mais um recorde no Guiness Book: o de maior frota de ônibus urbanos de 15 metros do mundo. São mais de 400 unidades distribuídas pelas concessionárias da região metropolitana, que escolheram o veículo como um dos mais rentáveis.
Quem mais batalhou pela implantação do conceito de ônibus de 15 metros no Brasil foi Wilson Pereira, o gerente executivo de Vendas da Scania. Não foi uma tarefa fácil, pois, por muito tempo a autorização esteve bloqueada, parte em razão do lobby dos concorrentes, parte pelo ineditismo da proposta.
Na Suécia a configuração já trabalha há mais de 20 anos sem problemas, porém a maior parte dos carros está operando em serviços rodoviários. Em regiões urbanas, segundo Pereira, a grande São Paulo, de fato, detém a maior frota de 15 metros do mundo.
"Essa configuração realmente é muito flexível e eficiente", diz ele. E parece que esse "jogo de cintura" do compridão é fato. Se a valeta da oficina foi feita para convencionais ele cabe, se foi para articulado, lógico, também se ajeita sem problemas.
O melhor mesmo é o alívio que a configuração tem dado nas despesas mensais quando o empresário compara o carro com um articulado de 18 metros. Menores custos e carga praticamente igual é lucro certo. Isso sem falar que os articulados sempre têm um detalhe bem complicado entre as carrocerias: a rótula central. Uma grande geradora de manutenções não programadas, que azedam o humor de qualquer empresário quando observa catracas paradas.
Na realidade, a diferença entre as duas configurações é de três metros, aproximadamente, o mesmo diâmetro da rótula central dos articulados, um lugar que positivamente não é o preferido pelos passageiros.
A diferença dos custos de manutenção entre o 15 metros e o articulado também pode ser explicada pela lógica. Enquanto o 15 metros é um veículo rígido, o articulado pode ser considerado como uma composição formada por dois ônibus.
Bom de passageiro
Na formatação da planilha comparativa, produto importante é a economia de custo de 20% nos pneus ? dez no articulado e oito no 15 metros. Sob esse aspecto, outro acerto é o posicionamento do eixo direcional atrás do eixo motriz (6x2*4), que segura o balanço traseiro e distribui melhor o peso do trem de força, aliviando o eixo dianteiro, um problema geral e irrestrito de todos os modelos de ônibus, um veículo comercial onde é a carga quem escolhe o lugar.
Os chassis de ônibus de 15 metros foram apresentados para valer na última Expobus, em 2001, aquela realizada no parque de exposições Imigrantes, em São Paulo. De lá para cá o três eixos caíram no gosto dos grandes empresários paulistas.
"Já temos uma frota rodante de mais de 400 carros", calcula Wilson Pereira, digamos o "pai" do 15 metros no Brasil. Licença daqui, legislação dali, foi ele quem pos a cara para bater diante do desdém de muita gente. Hoje, a configuração obteve a confiança dos empresários do urbano de passageiros.
A diretoria da Metra Sistema Metropolitano de Transportes do grupo ABC, de São Bernardo do Campo, SP, empresa que detém 57 unidades do compridão aprovou a configuração. Na Metra a introdução dos veículos de 15 metros na frota foi uma grata surpresa para os empresários. E, mais importante, os resultados vem não de qualquer comparativo com a configuração de 13,2 metros, mas com os articulados de 18 metros.
O diretor Comercial da empresa diz que a Metra testa nada menos que 23 tipos de tecnologia para selecionar a que mostre melhor desempenho em termos de custos e que, ao mesmo tempo, apresente baixo nível de emissões. No momento a companhia compara trólebus, elétricos híbridos, diesel padrão 15 metros, ônibus a etanol e a hidrogênio.
A Metra é concessionária do governo do Estado de São Paulo para o corredor Metropolitano ABD São Mateus-Jabaquara (desde 1997) e a extensão Diadema-Brooklin. Transporta 7 milhões de passageiros. Seus ônibus rodam 1,5 milhão de quilômetros por mês.
O interessante é que a empresa não cuida apenas da operação, mas também da manutenção e administração das vias e de nove terminais, sinalização, jardinagem e da comercialização de bilhetes, pois não opera com cobradores.
A companhia opera com um total de 265 carros, dos quais 81 são trólebus e 57 são chassis Scania de 15 metros ? no grupo, que entre outras empresas conta com a SBCTrans e a Himalaia, a configuração já soma quase 100 unidades. A história desses carros na Metra já tem 10 anos, mais intensamente a partir de 2007, com a nova série de chassis da Scania.
A surpresa é que os 15 metros carregam mais passageiros, ou no mínimo empatam com os articulados de 18 metros. "O custo-benefício desses carros é muito melhor", diz João Carlos Barbosa, chefe de Garagem da Metra. Com ipk melhor e menos problemas de manutenção, o 15 metros virou preferência na empresa entre os veículos diesel.
O investimento com esse tipo de ônibus é 25% menor do que com articulados de 18 metros e este último tem um custo operacional cerca de 30% superior. Para se ter ideia, o custo de instalação de ar condicionado mostra a diferença: enquanto no articulado a instalação do ar central custa R$ 60 mil, no carro de 15 metros o ar fica em R$ 25 mil.
"Procuramos explicações sobre o seu desempenho (em ipk) e a mais plausível foi a de que os passageiros esperam o 15 metros por ser mais confortável", diz. Todos os carros de 15 metros têm piso baixo e caixa automática, além de excepcional raio de giro. A consideração é válida porque ambos os coletivos trafegam em corredores exclusivos.
A economia é ainda mais flagrante quando o assunto é consumo de combustível. Enquanto os 15 metros apontam para um consumo de 1,55 até 1,65 km/l, os articulados, por sua vez, gastam entre 1,15 e 1,30 km/l. A despesa mensal com diesel é calculada entre R$ 7 mil e R$ 7,5 mil/carro. E isso porque a velocidade media do corredor ABD é excelente, chega a 27 km/h. "O mais interessante é que o 15 metros tem raio de giro muito bom para o seu comprimento", diz Fernando Belarmino, chefe de Tráfego da Metra.
Todo o sucesso dos ônibus de 15 metros no corredor ABD (alusivo às cidades de Santo André, São Bernardo do Campo e Diadema) e São Paulo, e a extensão Diadema-Brooklin, possivelmente se deve também ao conforto proporcionado pelas carrocerias Caio Millenium, com ar condicionado e a caixa automática, além, é claro, do chassi piso baixo.
Redação: Pedro Bartholomeu
Foto(s): Pedro Bartholomeu
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