Já houve tempo que a retífica de motor só era viável se feita em retificadores terceirizados, que mostravam um nível de qualidade oscilante de empresa para empresa. A implantação de associações melhorou muito este quesito e, hoje, além de um grande rol de retificadores, ou melhor, de reformadores, e a entrada direta dos próprios fabricantes com os sistemas de remanufatura, o mercado se profissionalizou e o resultado final é cada vez melhor.
Na Volvo, o programa de remanufatura existe há mais de 20 anos. Com uma participação de 9% no faturamento do pós-vendas da montadora, o sistema já faz parte do DNA da companhia. Atualmente, caminhões e ônibus da marca contam com uma linha de produtos remanufaturados que abrange mais de 300 componentes, como unidades injetoras, compressores de ar, motores, turbos, embreagens e caixa de câmbio, entre outros.
"A marca sempre teve uma preocupação muito forte em oferecer o melhor custo operacional para o cliente", afirma Felipe Battistella, coordenador de Marketing do Pós-Venda da montadora. Como a manutenção é um dos principais custos de uma empresa, invariavelmente o melhor e menor custo operacional acabam vinculados.
Nesse sentido, as peças remanufaturadas Volvo ficam em média 35% mais baratas que as equivalentes novas. Motivo mais do que suficiente para que nos últimos anos o cliente da marca tenha se tornado mais receptivo em relação à remanufatura.
A mudança de atitude é fruto de uma ação, digamos, educativa por parte da montadora. O que acontece é que a maioria dos clientes acredita que peça remanufaturada e recondicionada sejam a mesma coisa. Não é. A remanufatura significa renovar o ciclo de vida da peça, uma refabricação.
Ou seja, a maioria dos componentes que sofreram desgaste são trocados por outros novos, permanecendo as propriedades e durabilidade originais. Tanto é que os produtos remanufaturados têm a mesma garantia dos novos, 12 meses, sem limite de quilometragem.
Já a peça recondicionada sofre um processo de recuperação das partes desgastadas, estendendo o tempo de vida, mas não por um ciclo completo. E é aí que entra uma das principais âncoras de convencimento do cliente: o custo por quilômetro. "O cliente toma consciência que a opção pela remanufatura não deve ser feita com base no custo absoluto da peça, que no caso do recondicionado pode até ser mais barata, mas não terá a mesma vida útil de uma nova", ensina Battistella.
O fator decisivo, no entanto, é a disponibilidade do veículo. Quando alguma peça ou componente como o motor, por exemplo, dá sinais de falência, as concessionárias Volvo dão ao cliente duas opções: a reforma, que leva em torno de 10 dias ou a troca por um motor completo remanufaturado, que demanda apenas um dia, pois o serviço funciona no sistema base de troca.
Segundo o executivo, segmentos como os de mineração e de transporte de açúcar, cujos veículos rodam 24 horas, é muito mais rentável simplesmente trocar o motor por outro remanufaturado do que ficar 10 dias com o veículo parado. E como a ideia de pagar menos por algo com a mesma qualidade e garantia de um novo é bastante atraente, os componentes mais corriqueiros, como o turbocompressor, compressores e unidades injetoras remanufaturados não exigem muito poder de convencimento.
Na montadora, pioneira na oferta do serviço, o que faz a diferença é que o conceito de remanufatura está presente desde o início do projeto do veículo, garantindo que o novo caminhão ou ônibus seja pensado nos componentes que poderão oferecer a alternativa.
Por isso, uma grande parte do portfólio de remanufaturados da Volvo é formada por veículos que já não fazem mais parte da linha de produção, incluindo motores produzidos há 20 anos. "Justamente para permitir que o veículo em uma idade avançada tenha um custo de manutenção mais acessível", explica o executivo.
E como a evolução tecnológica dos veículos não para, na medida em que os produtos ganham sofisticação, o processo de remanufatura também se sofistica. Daí o trabalho constante em manter ferramental e pessoal treinado para realizar o serviço com todas as atualizações tecnológicas necessárias.
Um projeto piloto lançado em 2004, com uma pequena gama de produtos e motores mecânicos, dava início a Unidade de Remanufatura da Mercedes-Benz do Brasil. Sete anos depois, a montadora comemora 25 mil motores e 5 mil transmissões remanufaturados, totalizando 30 mil agregados.
Com mais de 50 tipos de motores mecânicos e eletrônicos e 18 opções de câmbio, além do conjunto de embreagem, a Mercedes vem registrando uma evolução contínua de crescimento, em 2010 foi de 41% em relação ao ano anterior. "Hoje, o cliente reconhece o valor agregado ao produto remanufaturado e o programa é um diferencial importante na hora da compra", analisa Jens Bürger, gerente de Pós-vendas da montadora.
Para o executivo, a falta de padronização e segurança nas opções existentes no mercado são fatores que influenciam na evolução do mercado de remanufaturados e torna o produto mais competitivo. Para se ter uma ideia, o produto com a qualidade e garantia de fábrica, com as mesmas características de um novo, custa só entre 15 e 25% mais caro do que o equivalente no mercado alternativo.
A solução de produtos remanufaturados atende 98% da frota ativa de veículos Mercedes-Benz, incluindo o mais recente lançamento, o Actros. Dessa forma, a troca de um motor, por exemplo, pode ocorrer em apenas um dia, desde que agendado junto à concessionária. Ou seja, o tempo menor de parada do veículo é uma das principais vantagens do produto remanufaturado. "Temos uma linha de produção exclusiva para esse tipos de produtos, o que garante que 80% da frota de caminhões Mercedes-Benz pode ser atendida em 24 horas", confirma Bürger.
Os critérios para o aceite do motor velho como moeda de troca seguem o mesmo padrão do mercado. O concessionário faz uma avaliação visual e se o bloco não estiver perceptivelmente trincado, as peças forem genuínas e não houver nenhuma restrição em termos de documentação, o produto é aceito e entra como parte de pagamento, onde o cliente já sabe exatamente quanto vai pagar e não é surpreendido por custos adicionais.
"Com garantia de procedência e durabilidade igual a original, a gente brinca que o produto remanufaturado é melhor que o novo", conta Bürger. Tem lógica, uma vez que 70% das matérias primas utilizadas no produto são reutilizadas. Além disso, tudo que é descartado, segue as rígidas normas de destinação implementadas pela fábrica, caso típico do óleo lubrificante.
Outra vantagem em relação ao meio ambiente é que o processo de remanufatura inclui a utilização de peças genuínas e sempre no último nível de evolução de desenvolvimento tecnológico da produção. Em outras palavras, o upgrade proporciona menos emissões de gases e menor consumo de combustível.
Embora tímido, o crescimento do mercado de remanufaturados tem sido constante. Em média, o produto corresponde a 10% das vendas das empresas que têm programas deste tipo. "O mercado tem um grande potencial de expansão", avisa Jefferson Germano, presidente da ANRAP ? Associação Nacional dos Remanufaturadores de Autopeças.
Com um suprimento menos extenso, a divisão de remanufatura da Scania do Brasil funciona há mais de 20 anos. Ali, pode-se encontrar cabeçotes de motores, compressores de ar, discos de embreagem, platôs e caixas de direção das séries 3, 4 e a linha PGR, além de equipamentos para a série K de ônibus.
Um grupo de trabalho é responsável por manter o mesmo padrão de qualidade e garantia das peças originais a um custo 30% mais barato que o novo. "Esse custo somado a uma economia de 60% do tempo do veículo parado se transforma em uma grande vantagem competitiva", assegura Lincoln Garcia, gerente de Negócios Vendas de Serviços da Scania do Brasil.
Como a remanufatura de motores ainda não está disponível, a montadora recomenda o recondicionamento com peças genuínas. Para isso, ela oferece pacotes de serviços que engloba peças, mão-de-obra e lubrificantes a um custo mais acessível. "Na média há uma economia de 30% em relação às peças compradas separadamente", afirma Lincoln Garcia, gerente de Negócios Vendas de Serviços.
Os pacotes podem ter de 5 a 150 itens, conforme o componente envolvido e a necessidade do cliente, que pode comprar e levar para fazer o reparo em sua própria oficina ou usar os serviços de um dos 102 pontos Scania distribuídos pelo país.
São nada menos que 63 pacotes específicos que atendem aos mais diversos segmentos e necessidade do cliente, como a mineração, construção civil, rodoviário, cana e madeira e o mais recente ônibus. "O conceito do reparo econômico é deixar o cliente rodando cada vez mais com um custo reduzido de reparo", conclui Garcia.
Prós e contras
Mesmo assim, ainda se debate com alguns entraves, entre eles a dificuldade na logística reversa para obtenção das carcaças, matéria prima dos remanufaturados. Justamente um dos fatores que explicam porque uma das maiores fabricantes de motores do país, a MWM International, optou por ampliar sua rede de retíficas credenciadas a investir no produto remanufaturado.
A remanufatura exige uma cultura onde o dono do veículo está acostumado a substituir o motor no fim de sua vida útil, trocando-o por um remanufaturado e mantendo um bom nível de reciclagem, que é o que viabiliza economicamente o processo.
"No Brasil, o comum é levar o motor muito além da sua vida útil, às custas de reparos provisórios e uso de peças de má qualidade e sem especificação, o que acaba muitas vezes por comprometer todo o sistema, tornando-o inviável para a remanufatura", explica Luiz Kanan, presidente da Navistar Parts, responsável pela divisão de reposição da MWM International.
Por outro lado, relata o executivo, "as empresas especializadas em retíficas prestam esse serviço por todo o país de uma forma dinâmica e mais próxima do cliente". Daí que a lógica é trabalhar com quem já trabalha e conquistou a confiança dos clientes. Acrescentando treinamento, suporte técnico e peças genuínas a preços competitivos, de forma a desestimular o uso de peças sem especificação e qualidade.
Claro que para que tudo funcione bem, as retíficas autorizadas devem ser, de fato, empresas que tenham um nível adequado de conhecimento técnico, equipamentos atualizados e financeiramente saudáveis. Para isso, a fabricante fechou parceria com o Conarem ? Conselho Nacional de Retificadores de Motores.
Profissionalização
Fundada em 1998, um dos maiores objetivos da entidade é a profissionalização das retíficas, criando programas de capacitação que as diferencie em um mercado conhecido como amador e desqualificado. "É uma associação bem organizada, que congrega um grande número de retíficas no país e tem um programa consistente de qualificação", detalha Kanan.
Sim, porque é bom lembrar que existem boas e más retíficas, como em qualquer outra atividade. "Trabalhamos com modelos padrões de autopeças, cuja tolerância chega a milésimos de milímetros", explica José Arnaldo Laguna, presidente da entidade. Assim, um virabrequim tem uma vida útil de quatro usinagens, admitindo um desbaste de 0,25 mm na primeira vida; 0,50 na segunda; 0,75 na terceira e 1,00 milímetro na última. Se na primeira usinagem o desbaste for maior que o 0,25 permitido, uma vida será desperdiçada.
"Quando um componente é bem cuidado, às vezes apenas um polimento resolve o problema". Mas isso só quem pode definir é quem tem conhecimento técnico, treinamento e muita ética. Criar mecanismos de diferenciação é o que tem feito a entidade ao longo desses últimos 10 anos. Um deles é um sistema que avalia as retíficas através de uma auditoria independente em sete aspectos: organização, instalações, equipamentos, materiais/produtos utilizados, processos, pessoal e meio ambiente.
Cada um deles possui vários sub-itens que recebem uma nota de 0 a 10 e os qualificam ou não a pertencerem ao seleto grupo de retíficas certificadas. Atualmente, 150 delas estão nessa categoria VIP e seguem padrões técnicos de reparo do motor estabecidas pela norma NBR 13032 elaborada pela ABNT ? Associação Brasileira de Normas Técnicas.
Além disso, tem responsabilidade sobre os serviços prestados e são habilitadas a emitir o Certificado de Garantia Nacional, que permite ao consumidor receber assistência técnica no motor reparado em qualquer oficina da rede em território nacional. "Esse modelo funciona muito bem, porque se o consumidor precisar, o motor pode ser reaberto por uma outra retífica com o mesmo perfil técnico e ético, sem o cliente colocar a mão no bolso", afirma Laguna.
Laguna lembra que outra vantagem do recondicionamento é que cada item do motor é avaliado de forma personalizada, para que se decida o que será reparado, usinado e trocado. O método permite reduzir os custos e o desperdício no descarte de peças que ainda tem vida útil para gastar. E, a partir da parceria com a MWM International, utilizando peças genuínas.
Hoje, a MWM International possui 79 retíficas clientes. Com a nova parceria esse número subirá para 135 novos parceiros, com o potencial de quadruplicar o número de motores recondicionados com peças genuínas. "O objetivo é crescer de 1,5 mil para 6 mil motores recondicionados com peças genuínas e conquistar cada vez mais a satisfação do cliente", diz Kanan.
Redação: Solange Hette
Foto(s): Divulgação
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