11:47

+ rodoviário / carga / reportagens

O contra-ataque



publicado em: 01/08/2011

A reação da Mercedes-Benz à perda da liderança no Brasil começa com a instalação de nova fábrica e o objetivo de reconquista da liderança até 2014.

A maior fabricante de caminhões do mundo ainda produz bem abaixo das 420 mil unidades que vendia em todos os continentes alguns anos atrás, mas prepara uma grande ofensiva mundial para recuperar as cerca de 60 mil unidades perdidas durante o período da crise financeira mundial.

O Brasil se inclui dentro deste cenário de redenção e a linha de frente da reconquista do mercado brasileiro de caminhões estará em Minas Gerais, na fábrica de Juiz de Fora, que passa finalmente a representar um papel de protagonista nas operações globais da companhia.

Membro do alto conselho da Daimler AG e responsável pelas divisões Daimler Trucks e Daimler Buses, Andréas Renschler adiantou as principais metas da maior montadora de veículos comerciais do mundo aos jornalistas brasileiros presentes ao lançamento mundial do novo Actros, em Bruxelas, na Bélgica.

"Com o início das operações da nova fábrica de caminhões de Juiz de Fora voltaremos à liderança do mercado brasileiro até 2014", prevê Renschler. Na planta industrial mineira, que passará a montar os caminhões Actros série 3 e Acelo, a capacidade de produção será de 15 mil unidades por ano, o bastante para possibilitar à empresa a reconquista do mercado. "Mas nossa volta à liderança ocorrerá dentro dos parâmetros que vimos adotando nos últimos 2 anos no Brasil: crescimento com rentabilidade", afirma Renschler.

Satisfeito com a forte recuperação do mercado global de caminhões ? evolução de 25% na Europa apenas no primeiro semestre deste ano -, o executivo observa que o Brasil, embora não faça parte da tríade de sustentação da elevada produção de caminhões do grupo Daimler no mundo ? formada por Estados Unidos, Europa e Japão (Freightliner, Mercedes-Benz e Fuso) -, é um mercado particularmente interessante por seguir os conceitos europeus de veículos comerciais. No mundo, a empresa produziu em 2010 nada menos que 355.300 caminhões. Entre os veículos comerciais em geral anote-se também a produção de 39.100 ônibus e 224.200 comerciais leves - vans e furgões.

O novo Actros lançado na Europa, entretanto, é veículo típico de mercados mais sofisticados e não chegará tão cedo à maioria dos países, o nosso inclusive. Entre alguns dos grandes mercados ? Índia, China e Rússia ? o veículo também é um sonho. "A nossa distância tecnológica para a Índia, por exemplo, varia entre 25 a 30 anos, para a China entre 20 a 25 anos e para a Rússia chega a 10 anos", avalia Renschler.

Aliados mundiais
Esta distância tecnológica é que tranqüiliza Renschler: "A expansão das montadoras chinesas na área de caminhões não nos leva a uma situação dramática, aliás, nossa estratégia é exatamente o inverso: é entrar nesses mercados e de maneira bastante competitiva, através de parcerias estratégicas."

O novo Actros, evidentemente, não faz parte deste roteiro. "Uma grande mudança que o novo Actros introduz é o sistema modular", adiciona Hubertus Troska, diretor de caminhões para a Europa e Américas da Daimler. São quatro dimensões de cabina com diferentes alturas internas, desde a Classicspace, de 1,40 m (na região do túnel do motor), a Streamspace, com 1,97 m; a Bigspace, com 1,99 m e a Gigaspace, com 2,13 metros.

Segundo Troska, a estratégia global da Daimler é a de atender a maioria dos grandes mercados sem correspondência normativa de preservação ao meio ambiente com veículos específicos e parcerias locais, como a Kamas, na Rússia; a Fóton, na China, além de fábricas como a do Brasil em São Bernardo do Campo, SP, e a da Turquia, em Aksaray.

Isso sem dizer dos produtos já desenvolvidos pelas suas satélites na Ásia e América do Norte, leia-se Fuso e Freightliner, que oferecem veículos adequados às necessidades e gostos dessas regiões. Nestas praças há grandes diferenças de legislação e de costumes, incluindo o tamanho dos cavalos mecânicos e requerimentos específicos sobre motores e Leis da Balança.

Para Troska, cada família de veículos é vocacionada ao atendimento de regiões específicas, com requisitos diferentes. Na Europa, por exemplo, a tendência é a família Actros assumir o total das ofertas de caminhões extrapesados, inclusive os fora-de-estrada, segmento que tem sido reservado aos Axor.

"A preferência pelas linhas e modelos varia muito ? observa Troska -, na Turquia ocorre exatamente o contrário que na Europa, onde predominam os modelos Actros: 90% da demanda são representados pelos caminhões Axor e apenas 10% das vendas referem- se aos Actros", exemplifica.

Assim, moldando-se à preferência continental, o novo Actros é oferecido com larguras de 2,3 m e 2,5 m, já antecipando a abrangência geral do veículo a médio prazo. Ou seja, o Actros assumir também as aplicações fora-de-estrada na Europa.

O novo caminhão permanece com uma versão Euro 5 até 2014, enquanto a oferta pública da versão Euro 6 depende da real competitividade do produto. "A oferta antecipada da versão depende da concessão de incentivos como os oferecidos na época pré-vigência da Euro 5 na Europa", diz Troska.

Esses incentivos incluíam, no caso dos Euro 5, descontos significativos tanto nos impostos cobrados como no pagamento de pedágios por toda a Europa. "Hoje muitas companhias adotam soluções ecológicas, mas ao mesmo tempo precisam manter a competitividade de suas operações." A diferença entre as versões do motor OM 471 resumem-se à redução da taxa de recirculação dos gases de escape e à ausência do filtro de partículas na versão Euro 5.

Para 2014 também está reservado o lançamento da versão 6x4, que será provavelmente tracionada por um motor de 600 cv. Hoje, as versões já apresentadas do novo Actros, nas configurações 4x2 e 6x2, têm potências de 420 cv, 450 cv, 480 cv e 520 cv nas quatro opções de motorização.

Portanto, até 2014, com certeza na IAA, em Hannover, estarão sendo apresentadas as novas famílias completas de New Actros e New Axor. Até lá, todavia, serão ainda produzidos os novos Actros e os atuais, da série 3, para mais de 20 países nas linhas de montagem de Wörth.

A nova trincheira
A fábrica de Juiz de Fora será assim o divisor de águas em termos de produção da Mercedes-Benz no Brasil. Além de ganhar um novo status, transformando-se em uma planta industrial muito importante na reconquista do mercado brasileiro, a fábrica mineira em dois anos estará pronta para produzir 15 mil unidades/ ano, numa capacidade total projetada de até 50 mil unidades/ano.

A sucursal mineira da empresa instalada num terreno de 2,8 milhões de m², conta com 176 mil m² construídos e será ponto chave para a revitalização da fábrica de São Bernardo do Campo, SP, que aos 55 anos de vida está no limite de sua capacidade e trabalhando com a mínima margem de erro no suporte logístico.

Com os Actros e Acelo montados em Juiz de Fora, a capacidade de produção da fábrica da Mercedes-Benz de São Bernardo do Campo passará de 65 mil para 75 mil unidades/ano. "Para otimizar a produção, dezenas de equipes brasileiras vem sendo treinadas desde o ano passado em Wörth", anuncia Mário Laffite, diretor de Comunicação da Mercedes-Benz do Brasil.

No momento são 40 técnicos que, depois da experiência, farão as vezes de multiplicadores dos procedimentos aqui no Brasil. Assim, os automóveis Mercedes-Benz deixam definitivamente a linha de montagem de Juiz de Fora, substituídos pelos caminhões Actros 3 e os Acelo, transformando Juiz de Fora numa fábrica de caminhões, a segunda da Mercedes-Benz no Brasil.

Também para incrementar a produção de Juiz de Fora, lá será instalado um parque de fornecedores que possibilitará a pré-montagem dos chassis do Actros nesta unidade satélite. Assim, os chassis chegarão "prontos" à linha principal, incluindo o quadro de longarinas e os eixos já desvirados e devidamente calçados ? na posição de montagem. Essa estratégia poupará preciosos metros de linha de montagem principal e seguramente acelerará o processo completo de manufatura.

Essa solução logística obrigou a implementação de uma re-engenharia na fábrica de Juiz de Fora, cuja principal diferença será a transformação do transporte subterrâneo interno de alimentação da linha de montagem (dos tempos de fabricação dos automóveis Mercedes-Benz CLC) para a movimentação aérea das partes.

Frank H. Lehmann, diretor da Engenharia de Manufatura de Produtos, baseado em Wörth, diz que a subsidiária brasileira ganha cada vez mais importância para o grupo, dentro da estratégia global da companhia, e não só na produção como também no desenvolvimento de novos produtos.

"Um deles é o Axor Crossover, um pesado para 100 t, que foi desenvolvido no Brasil e hoje é montado em Wörth, na Alemanha, através do sistema CKD, com as partes produzidas na fábrica do Brasil. Da Alemanha, então, os veículos são exportados para a África do Sul", explica Lehmann.

Em termos globais, segundo o dirigente, a nova fábrica brasileira entrará no circuito de flexibilidade da empresa que integrará as produções de Wörth, Aksaray e Juiz de Fora. "Hoje estamos em franca recuperação ? diz Lehmann -, depois das 113.700 unidades montadas em 2008, caímos para apenas 44.400 em 2009, aceleramos para 73.800 unidades em 2010 e vamos chegar, em Wörth, às 90 mil este ano."

Resolver a equação não é uma tarefa nada fácil. Para a montagem de um novo Actros, dependendo do modelo, são entre 30 a 40 mil peças diferentes envolvidas. Imagine o trabalho de montar entre 300 a 400 unidades por dia numa planta industrial numa velocidade de 2 minutos por unidade produzida.

Redação: Pedro Bartholomeu
Foto(s): Divulgação


Ver todas as notícias

Comentar sobre esta notícia
Nome:
Comentário:


redes sociais
facebook
twitter
youtube
flickr
fale com a revista
fale conosco


© 2003 - 2012. Revista Negócios em Transporte. Marca registrada da Tudo em Transporte Editora Ltda. Todos os direitos reservados.