A cidade de São Paulo começa a ganhar pelo menos em parte uma frota limpa, com o início da entrega de 50 ônibus movidos a etanol para a Viação Metropolitana. Os chassis Scania K 270 4,21 foram encarroçados com as Caio Millennium II, com 13,26 metros.
Os novos ônibus já obedecem aos índices do Proconve 7 ou Euro 5. Os K 270 em questão têm motor de 9 litros e desenvolvem potência de 270 cv. Eles são abastecidos com uma mistura de 95% de etanol e 5% de aditivo que promove a ignição. Além de atender ao P7, os novos K270 obedecem também à norma europeia EEV ? Enhanced Environmentally Friendly Vehicles.
O veículo é fruto de um convênio assinado em 2010 com a Prefeitura de São Paulo, a Scania, a Caio, a Metropolitana, além da Única, que fornece o etanol e a Raizen responsável pelo fornecimento do combustível final e a infraestrutura de armazenagem e abastecimento.
O grande exemplo, de fato, é o grupo Metropolitana, que investiu mais de R$ 20 milhões para renovação de 15% da frota de sua filial Metropolitana São Paulo, que dispõe de uma frota de 330 veículos. Os novos 50 carros começam a circular em três linhas que ligam a zona sul paulistana ao centro da capital.
O impacto ambiental dos ônibus a etanol é diminuto. Para se ter ideia, se os 15 mil ônibus da frota urbana de São Paulo fossem substituídos por estes carros, o equivalente em emissões seria igual a 3 mil coletivos apenas.
Wilson Pereira, gerente executivo de Vendas de Ônibus da Scania Brasil, assegura que a confiabilidade do veículo é total: "Há 20 anos comercializamos o produto na Europa e temos cerca de 800 unidades rodando em todo mundo, principalmente em Estocolmo (capital da Suécia)."
No Brasil, o primeiro ônibus a etanol chegou em 2007 por meio do projeto Best ? BioEthanol for Sustaintable Transport, coordenado no país pelo Cenbio ? IEE/USP. O coletivo demonstração já percorreu mais de 180 mil quilômetros em diversas linhas da região metropolitana de São Paulo.
A vantagem do etanol é que ele não requer adaptações, pois usa motores diesel normais e uma das soluções para substituir, até 2018, toda a frota paulistana de ônibus com motores movidos a combustível fóssil.
Empresa verde
Não é de hoje que o grupo Metropolitana Transportes encara a preservação ambiental como uma missão da empresa, apesar do destaque que a empresa vem merecendo na midia de massa, depois de ter se transformado na primeira a adotar os ônibus a etanol na sua operação paulistana.
Mesmo com as dificuldades inerentes a uma empresa cuja operação é obrigatoriamente poluente ?a queima de combustível fóssil-, a sede do grupo em São Lourenço da Mata, em Pernambuco, e todas as demais empresas ligadas a ela são certificadas pela ISO 14000, a norma que merecem os respeitadores do meio ambiente.
A empresa comandada pela presidente Niege Chaves conta com mais de 760 veículos com idade média geral de 3,5 anos. A parte administrativa e operacional é tocada por 3,2 mil funcionários. Um dos maiores destaques do grupo é o cuidado com as questões ambientais, o que explica a aquisição de veículos a etanol, que tem custo 30% superior ao similar a diesel. Em compensação, a redução de emissões de CO2 chega a 90%.
A Metropolitana prova que é possível operar despejando no ar o mínimo de emissões não só por essa iniciativa. Em suas outras viações o mesmo ocorre com ações simples, muito boa vontade, treinamentos direcionados e incentivos às ações de preservação ambiental. A mais efetiva delas, com certeza, é o sistema de economia de combustível, o grande vilão dessa história.
No ano de 2010, mais de 110 mil litros de diesel foram economizados até setembro em relação ao ano anterior com os programas implantados pelo grupo e muita atenção ao treinamento dos funcionários. Com frota de idade média de 2,5 anos na CRT ? Cidade do Recife Transportes, de 3,7 anos na Metropolitana e de 3,5 na MSP. O programa de premiação leva em conta a mediana de consumo por carro, com uma meta pré-estabelecida 5% inferior sobre a anterior e uma supermeta de menos 8%.
A consolidação dos dados se dá a cada quinzena para premiações semestrais e anuais. O melhor do semestre recebe um bônus de 20% do salário e o melhor do ano, que também leva em consideração o número de reclamações dos usuários, ganha um prêmio de 15% do que economizou durante o ano. Se atingir a supermeta, então, recebe 30% da economia conseguida.
Reciclagem
O motorista modelo, o vencedor anual, é aquele que obtém o melhor desempenho, o que não leva em conta apenas a economia de combustível, mas também sua regularidade e comportamento. Esses requisitos são facilitados porque toda a frota de 200 ônibus da Metropolitana, por exemplo, é rastreada e possui câmeras internas, que transmitem imagens à central de operações da companhia.
"Nossa ideia não é fazer nenhum "Big Brother", mas usar ferramentas que viabilizem criar um cultura para o segmento, que era primitiva", diz Andréa Laurindo Schneck, do departamento de Recursos Humanos. A chiadeira inicial, evidentemente, foi grande, até quando os funcionários perceberam que os dispositivos não eram apenas para fiscalizar, mas
para educar e proteger.
Com as câmeras, por exemplo, tornou-se possível diminuir o número de assaltos, as ações defensivas em casos de acidentes e outras ocorrências. "Foi um trabalho de conscientização muito gratificante, porque os resultados vão galgando patamares cada vez mais elevados", diz Andréa.
De qualquer maneira, os controles também sugerem quais os motoristas que precisam ser reciclados na condução dos coletivos, para alcançar a média de consumo apresentada pelos colegas de volante. "É uma ferramenta educativa eficiente", complementa.
Outra iniciativa que apresentou resultados foi a implantação de um sistema de coleta seletiva e uma central de resíduos totalmente classificados, desde óleo e estopa até lâmpadas. "Segundo as normas, contratamos uma empresa para gerenciar o destino desses resíduos com relatórios de volume e peso", diz Kleber Alcântara, engenheiro responsável pelo setor.
A meta, evidentemente, é baixar a quantidade destes descartes. Cada um deles tem identificado seu tratamento específico e uma pessoa foi contratada especificamente para otimizar as soluções. De 4 toneladas de lixo com 3 t de contaminantes, o volume baixou 50% com a venda do óleo lubrificante usado para rerefino e papéis, plásticos e metais para reciclagem. Uma iniciativa sábia foi o abandono total da estopa, que foi substituída pela flanela industrial.
Os controles também passaram a ser muito mais rigorosos. Entre as ações tomadas registre-se a troca de torneiras, descargas de vasos sanitários e o reuso de água, que levaram a economia de 87,4 mil litros de água. Até a lavagem dos ônibus passou a ser manual, o que economiza até 150 litros/carro, pois a máquina automática chega a consumir 500 l/carro.
Uma consultoria foi contratada para identificar o perfil de consumo da empresa e fazer a reengenharia da garagem, com a meta de economizar 2 horas de consumo por dia. Houve substituição de gerador, troca de iluminação para lâmpadas de baixo consumo, substituição dos aparelhos de ar condicionado por motores com selo Procel A e ações menores.
Assim, com a conscientização geral de que a preservação é responsabilidade de todos e de cada funcionário em particular e de qualquer departamento, todos são orientados a tentar tirar o máximo de cada produto consumido e que seu reuso também é um fator de preservação do meio ambiente.
Isso ocorre na manutenção, desde a mecânica propriamente dita, que exige cuidados extremos na lavagem de peças, com a oferta de compartimentos de trabalho estanques e contenção de óleos e graxas para destinação correta até a borracharia.
Nesta os profissionais devem estar atentos às providências para estender ao máximo a vida dos pneus com providências que preservem as carcaças, único meio de ganhar várias reformas. Os fornecedores também são avaliados em busca dos melhores resultados. Afinal, os pneus também são produzidos em sua maior parte por derivados de petróleo.
De olho em todas essas ações está Cláudia Melo, auditora de Qualidade da empresa, responsável pelas melhorias contínuas. "Nosso objetivo agora é nos prepararmos para a ISO 18000", adianta Cláudia. A 18000 é uma certificação mais social, tratando da segurança e da saúde ocupacional através de sistemas de gestão e abrangendo até as famílias dos funcionários.
Os cuidados direcionam-se às melhorias e otimizações de processos já obedientes às normas 9001 e 14000. "Temos um comitê interno que discute problemas e soluções em cada setor da empresa, inclusive nos terminais, onde auditores secretos ouvem as reivindicações dos passageiros", explica Cláudia. A empresa administra o terminal Camaragibe, integração com o metrô e este é um dos pólos de pesquisa direta com os passageiros.
A Metropolitana conquistou mais de uma dezena de prêmios, entre eles dois prêmios ANTP de Qualidade graças ao seu planejamento estratégico. Todas as iniciativas colaboram para assegurar um serviço com pontualidade, regularidade e segurança aos passageiros.
Redação: Pedro Bartholomeu
Foto(s): Pedro Bartholomeu
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